Contatos Imediatos, Fadas e Aprendizes

Confesso que este artigo não tem um argumento objetivo, mas quem sabe o insight que me levou a escrevê-lo seja interessante. Há poucos dias eu estava reassistindo Contatos Imediatos de Terceiro Grau e a cena final me levou a pensar em que tipo de pessoa que uma civilização alienígena avançada escolheria para mostrar sua cultura e conhecimento. Cientistas, inventores, líderes bem preparados? Imagino que para eles um indivíduo desses se equipare a um primata capaz de abrir nozes com uma pedra; ninguém estaria preparado para isso. O único diferencial que consegui supor foi o mesmo com o qual Spielberg brindou seu protagonista: o deslumbramento, o olhar lúdico que brota de um espírito entusiasmado e curioso, geralmente só visto em crianças. O adulto é cheio de
certezas sobre o mundo, cheio de afirmações, em especial sobre o que não conhece. Ele elegeu seus interesses e verdades, descartando tudo que não se ajusta aos esquemas que elaborou. Mais do que isso, ele aprendeu a filtrar, a ver as coisas de um certo modo. Pense em um cientista com seu filtro de cientista ou em um militar com seu filtro de militar perdendo boa parte da experiência dentro da nave. Mas não Roy Neary, o escolhido da história. Embora casado e pai de três filhos, para ele tudo é novo, tudo é digno de atenção.

“Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito.”

Este provérbio zen nos diz que a mente do especialista, “daquele que sabe”, é limitada. Já o aprendiz tem a mente desperta e aberta à experiência, o que me lembrou outro ditado: quando o discípulo está pronto, o mestre  desaparece. A mente jovem é espontânea, criativa e despretensiosa. Se você tem mais de vinte anos, provavelmente viu como progressivamente seus loucos desejos juvenis deram lugar a objetivos claros e realistas, o penoso e necessário processo desilusório que chamamos de amadurecimento. Você também deve ter notado que seus sonhos foram perdendo a característica fantástica e parecendo cada vez mais com seu cotidiano: discussões no trabalho ou
relacionamento, um passeio por uma rua qualquer ou mesmo um monte de memórias distorcidas. É o outono da alma, como enfatiza Changeling: O Sonhar, um RPG sobre fadas, desilusão e reencantamento. A vida adulta exige muitas mudanças e deixar de fantasiar certamente otimiza o processo, mas a que preço? Creio que seja o de perder a mente de principiante, desencantar os próprios olhos e filtrar um mundo em preto e branco onde o óbvio é tudo o que se pode ver. Refletindo sobre isso, pensei no RPG e em como ele amplia o mundo para nós por algumas horas,
rompendo a barreira entre o real e o imaginário a ponto de termos memórias tão vivas de algumas histórias como se de fato tivessem ocorrido. Com o tempo acabamos percebendo que a tal realidade é subjetiva e que as histórias que vivemos em mesas de RPG têm um valor emocional que reencanta o mundo para nós.

E por fim
Quando jogamos, o filtro com o qual costumamos ver a realidade cai por terra e nos tornamos mais criativos e, por que não, mais ricos em nossas experiências, já que podemos ir a lugares e viver coisas que o Povo Outonal, as tais pessoas sérias, jamais  conhecerão. Quem sabe até embarcar em uma nave alienígena.