MUNDO VIVO: Quem são os seus NPCs?

UM DESAFIO DE INTERPRETAÇÃO E IMPROVISAÇÃO

Salve, caro leitor! Seja bem-vindo ao primeiro artigo da série “Mundo Vivo”, onde apresentarei um método de mestrar que é sobretudo de improviso, embora também requeira lá seus minutos de preparo.

Tudo começa com você mudando toda a sua idéia sobre os NPCs. Eles não são meras ferramentas ou linhas de texto, eles são pessoas, criaturas, deuses. Eles foram os agentes que criaram toda a história do mundo até então e continuam moldando-o em quaisquer lugares em que os PJs não estão sendo estes agentes principais. Os PJs são os protagonistas da aventura, e você jamais deve negá-los este holofote. Entretanto, os NPCs são os protagonistas de suas próprias vidas – assim como você e eu.

Mas como diabos passar essa impressão, você me pergunta? Bom, eu separaria em três passos.

O primeiro passo é criar as entidades importantes para a região em que os seus jogadores vão jogar. Digo entidades porque você não precisa criar previamente cada indivíduo de uma organização, por exemplo – que também é uma entidade. Explore o passado de cada um dos indivíduos mais importantes, de cada reino e cidade importante, suas motivações e seus desejos. Invente os motivos de aquela cidade ter sido fundada ali, os meios pelos quais ela se mantém. Crie uma razão para aquele mercador estar viajando naquela estrada.
O segundo passo, e o mais importante: interprete os NPCs. RPG é isso! Mesmo para você, o mestre. Mais ainda para você. Pense como cada um deles, entre na mente deles e aja como agiria se fosse você naquela situação.

Você é Rugnag, o capitão hobgoblin do posto avançado que está sendo invadido por uns aventureiros – aparentemente um deles é algum tipo de mago, e eles tem um combatente bem armadurado. Como defender o seu forte? Quais ordens dar para seus subordinados?

Você é Mordeosso, um goblin besteiro no posto avançado do capitão Rugnag, e uns aventureiros estão dizimando outros goblins logo a frente. Você com certeza não quer aquele destino. O capitão grita ordens atrás de você, pressionando-o a seguir em frente, como vai agir?

Quando mestra assim, interpretando cada NPC, tanto de modo reativo quanto proativo, além de ser bem divertido, ainda é mais dinâmico, e mais acreditável. Também é bem mais fácil de improvisar. Quando você cria os NPCs e os planos iniciais deles, e então os interpreta, você pode reagir a qualquer coisa que os jogadores façam. Apenas pense como aquele personagem e pronto, num passe de mágica você deu continuidade na sessão.

O terceiro passo consiste em deixar os NPCs seguirem as vidas deles mesmo quando os PJs não estiverem por perto. Lembre-se: eles são os protagonistas de suas próprias vidas, mesmo que sejam coadjuvantes na aventura. A vida deles não pausa porque o grupo de PJs não estão na mesma sala que os mesmos. Este passo é bem interessante e gera um método de mestrar completamente diferente, mas esse assunto é longo e vou deixar para elaborar melhor em um artigo posterior.

Gosto de chamar esse estilo de mestrar de mundo vivo, porque ele passa essa impressão de ser todo um universo com os quais os jogadores podem interagir, e não um filme com um enredo pré-definido.

Por fim, vou deixar um rabisco rápido de um vilarejo e seus arredores, como um exemplo de como isso funciona na prática.

Recanto Aureal
Recanto Aureal é um pequeno vilarejo às margens do Rio Dourado – assim chamado porque no começo da primavera a maneira com que o sol reflete em suas águas pelas manhãs o fazem resplandecer em um brilho áureo característico. Ele foi fundado por pescadores, que começaram a construir suas casas perto do rio por comodidade, e ainda hoje se mantém devido à pesca, sua principal fonte de alimentos e renda. O vilarejo tem ali seus 700 e poucos habitantes, um ferreiro, três barbeiros, duas tavernas, sendo que nenhuma funciona como estalagem (não passam viajantes o suficiente para sustentar uma estalagem) e uma pequena guarda. Esta é nossa primeira entidade.
Sir Roderick
Sir Roderick é o líder da pequena guarda, de seis homens, de Recanto Aureal. Ele é um homem alto, nos seus quarenta e poucos anos, com barba rala e um cabelo sempre mantido baixo. Ele possui uma cicatriz no canto esquerdo do rosto, e tem a mania inconsciente de nunca fazer perguntas, sempre fraseando-as como afirmações que induzem as pessoas a responderem. Ele é um nobre, teoricamente, mas é o quarto filho de uma família sem muito renome, então acabou não herdando nada de valor. Se tornou cavaleiro ainda jovem, mas logo deixou esse posto e foi morar com a esposa no vilarejo onde os pais da moça trabalhavam. Tem duas filhas, uma moça de vinte e poucos anos e uma menina sapeca de onze. Sir Roderick é nossa segunda entidade.
Pedra Babenta
Pedra Babenta é o nome que uma formação rochosa próxima a Recanto Aureal recebe devido ao seu formato que lembra uma cabeça humanoide de “boca” entreaberta, pela qual sai um pequeno riacho. Recentemente, um grupo de goblins e uns hobgoblins liderado por um hobgoblin chamado Rugnag se apossou das cavernas da Pedra Babenta e construiu um posto avançado. O capitão já colocou escoltas para carimbar a região e ver o que pode tomar à força e com o que deve tomar cuidado. O posto avançado é nossa terceira entidade.

Ali perto também há uma bruxa verde chamada Senhora Herbalúcida, um gigante da colina recém-chegado que chama a si mesmo de Rei Grandão e um mago extremamente peculiar que mora sozinho em uma cabana e muda seu nome mais ou menos a cada duas vezes que conversa com alguém. Estas são nossas quarta, quinta, e sexta entidades. Deixo para você pensar em suas motivações e planos. (Os nomes em negrito representam entradas no Monster’s Manual do D&D 5ª Edição, e essa região formaria um lugar legal para você colocar um grupo de personagens de 4º nível, mas você pode usar isso com qualquer sistema.)

Com essas informações em mãos, você pode criar ganchos à vontade para os jogadores pegarem, basta você criar situações em que essas entidades interagem entre si, e em que interagem com os jogadores, e então interpretá-las.

E esta é minha dica de hoje. Da próxima vez que colocar um NPC em sua campanha, pense em quem ele é e seja ele. Afinal, é para isso que a gente senta ao redor de  mesas rolando dados, não é mesmo? (:

> MATHEUS “SET” INÁCIO é um professor particular e estudante de engenharia civil apaixonado desde sempre por histórias, principalmente de fantasia, em todos os seus meios de apresentação. Curte café, escrever, ler, café, jogar, e vem tentado controlar – sem sucesso! – um vício em deixar tudo que começa pela metade. Curte café também. Bate nas portas das pessoas às 7 da manhã para pregar GURPS e a palavra do Steve Jackson e do Dr. Kromm.