Síndrome de Wilson

[su_heading align=”left” margin=”10″]Wilsonnnn!![/su_heading]

 

Sim, estou falando do primeiro Wilson que veio à sua mente, do Wilson que emocionou o mundo como fiel amigo de um náufrago quase sem esperanças, a simpática bola de vôlei que se perdeu no mar e fez Tom Hanks chorar como criança. É difícil acreditar que uma “relação” desse tipo possa surgir, um apego tão profundo de um homem por uma bola com um rosto pintado com sangue. Claro que não é algo tão simples. Chuck, o protagonista de Náufrago, era uma pessoa comum vivendo uma situação extrema. Como um meio intuitivo de preservar a própria sanidade, ele projetou na bola um personagem, intencionalmente a princípio. Ano após ano ele repetiu a encenação até ela tornar-se real, a ponto de Chuck arriscar a vida por Wilson. Agora, imagine as longas conversas, a sincronia de ideias, as confidências e silêncios compartilhados; por fim, o luto pelo amigo que se foi. Passado algum tempo, Chuck entendeu perfeitamente o que lhe aconteceu. Ao mesmo tempo, ele jamais poderá pensar em Wilson como uma simples bola.

[su_quote]Sem tanto drama, esse paradoxo afeta jogadores de RPG que fizeram mais do que acumular pontos em suas planilhas ao longo dos anos (o que gera apego de outro tipo). A criação de personagem contém diversos elementos estatísticos, como Atributos e Vantagens. No entanto, a alma de um personagem está em seu Prelúdio, onde o jogador descreve sua aparência, conta sua história e esboça sua personalidade e motivações, aprofundadas no decorrer da campanha. O roleplay é muito influenciado por essa construção. Quanto mais vida o jogador der ao personagem, mais imersivo o roleplay será. Com o tempo, o personagem ganha importância. Sim, esse tipo de importância. Ele deixa de ser um mero personagem de jogo e passa a fazer parte da história do jogador, um laço emocional com uma planilha. Novamente, não é algo tão simples. Projetamos muito de nós em nossos personagens. Quanto mais o fazemos, mais ele se torna parte de nossas vidas, como ilustra a história de Chuck e Wilson.[/su_quote]

Nada demais até aqui. Se nos apegamos a personagens da ficção, quanto mais aos nossos. O problema surge quando o jogador se converte em guardião do personagem. Em dado momento o Mestre descobre que aquele personagem não pode morrer, a menos que ele queira pôr em risco sua amizade com o jogador. Ele precisa abrandar os desafios da sua campanha para que sempre haja uma escapatória. O jogador se torna defensivo e acaba discutindo sempre que vê seu personagem em perigo.

Mestre, antes de dizer que o jogador que segue há anos com o mesmo personagem deveria lembrar-se de que se trata apenas de um jogo, lembre-se também do mesmo. Sabendo que o personagem ganhou essa relevância para o jogador, não parece válido tratá-lo com a regra crua do jogo. Por outro lado, aventura sem risco é uma contradição. O que fazer?

  1. Cuidado com a história. É melhor que encontros aleatórios não sejam decisivos. Maneire com a interpretação de falhas críticas. Evite matar se não for parte da história;

  2. Converse com seu(s) jogador(es). RPG é um jogo. Para a vitória ser legítima deve haver chance de derrota;

  3. Caso você perceba que o segundo ponto não ficou claro para o grupo, considere a possibilidade de concluir o jogo. Em geral um personagem não dura tanto sem muitos lances de sorte e boas estratégias do seu jogador. Porém, a longo prazo a banca sempre vence, a menos que você alivie demais. Nesse caso o jogo perderá o sentido, até o que foi conquistado de fato. Se os personagens se tornaram intocáveis, lhes conceda um fim digno, quem sabe como NPCs de uma nova campanha.

Jogador, veja a encruzilhada onde você colocou seu Mestre. Ele não quer desrespeitar seu personagem, mas saiba que a campanha tem o mesmo valor emocional para ele e fazer dela um passeio também é desrespeitoso. Confie em seu Mestre e deixe que ele faça seu trabalho. Vivo ou morto, seu personagem faz parte de sua história. Se o pior acontecer, lembre-se que tudo tem seu fim, mesmo bolas de vôlei e planilhas de RPG.

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